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Carta a Bush
Mr. Bush
"Quousque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?" (Cicero)
Pergunto-me seguidamente: que se passa na cabeça de um homem, líder de uma grande
nação (apesar da eleição questionável), que diz acreditar em Deus, enquanto
provoca guerras motivadas por seus interesses egoístas e mesquinhos, levando
morte e dor a milhões de seres humanos? Que conceito tem de Deus? Que visão
possui do papel do Ser Humano na Terra? Que estima tem pelo planeta em que vive?
Será que pensa que será eterno? Será que acredita haver raça superior às demais?
Será que conhece a História? Será que ainda tem consciência ou coração?
Não posso crer que haja, num mundo onde a informação está ao alcance de todos
os letrados com facilidade, alguém que ignore lições tão simples da História
quanto: nenhum império é eterno; o anseio do Homem por liberdade sempre acaba
vindo à tona e sobrepujando situações de dominação; a sobrevivência do Homem
no planeta depende essencialmente da criação de uma consciência solidária; não
pode haver paz sem justiça social; a vida é direito intrínseco de cada Homem.
Ora, como classificar um homem que se julga no direito de desafiar instituições
criadas com o objetivo de resolver os problemas mundiais através do diálogo
e que desrespeita princípios básicos como a obediência ao Direito constituído,
o reconhecimento da diversidade cultural, a autodeterminação dos povos,
o direito de cada Ser Humano de ter acesso aos bens culturais, científicos
e tecnológicos construídos pelo Homem ao longo de sua trajetória na Terra,
a preservação do planeta e o respeito à vida do Ser Humano? Como classificar
um homem para quem a morte de milhares de seres humanos é indiferente, para
quem jogar bombas de material radioativo que deixarão seqüelas graves por
várias gerações é comum, para quem deixar crianças vítimas da contaminação
radioativa sem acesso a remédios através de embargos econômicos é banal?
Como classificar um homem que acredita ter direito a se armar até os dentes,
mas que não admite que os outros se armem; um homem que contribui decisivamente
para a fome de milhões de pessoas ao cobrar juros extorsivos de dívidas externas
que se tornaram eternas; um homem que oprime povos inteiros através da ameaça de
retaliações econômicas? Como, enfim, classificar um homem para quem os demais
homens são meros objetos descartáveis?
Define-se tal homem, lamentavelmente, como um traidor da raça humana, como um ser
que representa a involução da espécie, como a besta anunciada no Apocalipse!
Mas, como a Esperança é a última que morre, espero que ainda haja uma chama genética
de Ser Humano dentro do senhor e que, despido dos preconceitos e vaidades arraigados
em seu íntimo, reflita sobre o milagre da vida só existente neste pequeno planeta
e dê uma chance de vida plena e digna a todos os seres, inclusive ao senhor!
Antonio Augusto Alves Mateus Filho
Professor
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